Desvendando o Lúpus
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune sistêmica de apresentação heterogênea e alta morbidade, caracterizada por variabilidade significativa em sua manifestação clínica. Distingue-se por períodos de atividade (“flares”) e remissão, podendo cursar com manifestações localizadas ou sistêmicas de gravidade variável, com predomínio de manifestações mucocutâneas, articulares, hematológicas e renais.3,4
Manifestações Clínicas
Constitucional5
Alguns sintomas são gerais, como a febre baixa, perda de peso, falta de apetite, fraqueza e desânimo.
Cutânea1
Lesões na pele estão presentes em 70% a 85% dos casos de LES ao longo do curso da doença e podem ser sintoma de apresentação em até 25% dos pacientes.
Articular1,5
Problemas articulares estão presentes em até 90% dos pacientes. Geralmente, acomete pequenas articulações, como juntas das mãos, punhos, joelhos e pés, com períodos de melhora e piora.
Hematológica5
Anemia, leucopenia, linfopenia e plaquetopenia derivam de autoanticorpos específicos e podem causar palidez da pele e mucosas, cansaço, aumento do sangramento menstrual, hematomas e sangramento gengival.
Renal5
A nefrite é uma das complicações mais sérias, podendo evoluir para insuficiência renal se não diagnosticada e tratada precocemente. Ela pode levar o paciente a precisar de diálise ou até mesmo transplante renal.
Neurológica4
Comprometimento neuropsiquiátrico: convulsões, psicose, alterações cognitivas e síndromes neuromusculares são possíveis e indicam um prognóstico mais reservado.
Outras3,4
- Serosite (pleurite, pericardite).
- Manifestações pulmonares (pneumonite, hemorragia alveolar).
- Cardíacas (miocardite, endocardite de Libman-Sacks).
- Gastrointestinais também podem ser observadas.
Complexidade Diagnóstica
O diagnóstico do LES permanece desafiador, dada a sobreposição sintomatológica com outras doenças autoimunes e a variabilidade interindividual na expressão clínica.4 Critérios atualizados — como EULAR e ACR — têm auxiliado, porém, não impedem atrasos que impactam o manejo e prognóstico.5
Manifestações Cutâneas
A pele é frequentemente o órgão de apresentação inicial do LES. Entre 70-80% dos pacientes desenvolverão manifestações cutâneas ao longo do curso da doença.1 As apresentações incluem lúpus cutâneo agudo (eritema malar), subagudo (lesões anulares e psoriasiformes) e crônico (discoide, paniculite), além de vasculopatias, Livedo reticularis e alopecia não cicatricial.6
Lesões na pele impactam significativamente a qualidade de vida e frequentemente sinalizam refratariedade terapêutica, o que justifica investigação exaustiva e revisão periódica do esquema farmacológico.1,4
Do ponto de vista patogenético, as lesões cutâneas do LES resultam da complexa interação entre fatores genéticos, ambientais (UV, infecções virais) e imunidade inata e adaptativa — com papel central do IFN tipo I, células dendríticas plasmocitoides e citocinas pró-inflamatórias.7
Desafios no Diagnóstico Diferencial
A heterogeneidade das lesões cutâneas demanda precisão e validade dos sinais e sintomas clínicos, biópsia cutânea (histopatologia e imunofluorescência direta) e exames laboratoriais detalhados. Sendo importante distinguir LES cutâneo de início sistêmico de doenças, como dermatomiosite, rosácea, psoríase, eczema e vasculites.1,5
Pacientes com envolvimento cutâneo isolado devem ser monitorados quanto à progressão sistêmica, dados os estudos que associam determinadas manifestações cutâneas à futura atividade da doença.1
Manejo Atual
A corticoterapia sistêmica, antimaláricos, imunossupressores convencionais e talidomida são pilares na abordagem do LES cutâneo e sistêmico.6,7
Contudo, uma parcela considerável de pacientes evolui com resposta subótima, dependência de corticosteroides ou intolerância medicamentosa.3,8 Além disso, o uso prolongado de altas doses de corticosteroides continua associado a risco aumentado de osteoporose, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão e dano irreversível.8
Resumo das Recomendações de Manejo do LES da EULAR 20238
O diagnóstico precoce do LES e a otimização do tratamento são essenciais.8
Início imediato do tratamento visando à remissão (ou baixa atividade da doença se a remissão não for possível).8
O uso de glicocorticoides (GC) deve ser minimizado para uma dose de manutenção de ≤ 5 mg/dia de prednisona e retirado quando possível.8
O uso imediato de imunossupressores (IS) e/ou agentes biológicos deve ser considerado para controlar a doença e facilitar a redução gradativa e retirada de GC.8
Terapias Biológicas
O manejo do Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) avançou significativamente nas últimas décadas com a incorporação das terapias biológicas. Essas terapias representam uma nova fronteira no tratamento, especialmente para pacientes com doença moderada a grave ou refratária ao tratamento convencional, oferecendo opções com mecanismos de ação mais seletivos e direcionados aos principais patomecanismos imunológicos do LES.3,9,10
benefícios das terapias biológicas10
Redução sustentada da atividade sistêmica e cutânea do LES: as terapias biológicas demonstraram benefício significativo especialmente em pacientes com doença de difícil controle, incluindo manifestações cutâneas refratárias.10
Diminuição da dependência de corticosteroides: estas classes terapêuticas favorecem o desmame mais precoce dos corticosteroides, reduzindo os riscos de efeitos adversos cumulativos.10
Perfil de segurança acompanhado em extensões de longo prazo: a maioria dos estudos demonstrou eventos adversos manejáveis, com monitoramento rigoroso para infecções oportunistas, principalmente em pacientes com fatores de risco.10
Individualização da indicação: a seleção da classe terapêutica deve considerar o fenótipo dominante da doença, a resposta prévia ao tratamento, presença de comorbidades e fatores prognósticos de dano cumulativo.10
Em resumo, o progresso da biotecnologia permite terapias biológicas direcionadas para o LES, reduzindo a atividade da doença e melhorando a qualidade de vida dos pacientes.10
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ACESSE AGORALES = Lúpus Eritematoso Sistêmico; EULAR = European League Against Rheumatism; ACR = American College of Rheumatology; UV = ultravioleta; IFN = interferons; GC = glicocorticoides, IS = imunossupressores.
Referências bibliográficas:
- Stull C, Sprow G, Werth VP. Cutaneous Involvement in Systemic Lupus Erythematosus: A Review for the Rheumatologist. J Rheumatol. 2023 Jan;50(1):27-35.
- Vale Vale ECSD, Garcia LC. Cutaneous lupus erythematosus: a review of etiopathogenic, clinical, diagnostic and therapeutic aspects. An Bras Dermatol. 2023 May-Jun;98(3):355-372.
- Geertsema-Hoeve González-García A, Cusácovich I, Ruiz-Irastorza G. Treatment of systemic lupus erythematosus: new therapeutic options. Rev Clin Esp (Barc). 2023 Dec;223(10):629-639.
- Kundnani Schlencker A et al. Improving patient pathways for systemic lupus erythematosus: a multistakeholder pathway optimisation study. Lupus Science & Medicine 2022;9:e000700.
- Chatham Sociedade Brasileira de Reumatologia. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Disponível em https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/lupus-eritematoso-sistemico-les/. Acessado em 25 de abril de 2025.
- Kundnani NR, Levai MC, Popa MD et al. Biologics in Systemic Lupus Erythematosus: Recent Evolutions and Benefits. Pharmaceutics. 2024 Sep 6;16(9):1176.
- Sociedade Geertsema-Hoeve BC, Sickinghe AA, van Schaik-Mast SJ et al. The effects of lifestyle interventions on disease activity and quality of life in patients with systemic lupus erythematosus: A systematic review. Autoimmun Rev. 2024 Oct;23(10):103609.
- Adriana Fanouriakis A, Kostopoulou M, Andersen J et al. EULAR recommendations for the management of systemic lupus erythematosus: 2023 update. Ann Rheum Dis. 2024 Jan 2;83(1):15-29.
- Mota Kalunian KC, Furie R, Morand EF et al. A Randomized, Placebo-Controlled Phase III Extension Trial of the Long-Term Safety and Tolerability of Anifrolumab in Active Systemic Lupus Erythematosus. Arthritis Rheumatol. 2023 Feb;75(2):253-265.
- Carvalho Chatham WW, Furie R, Saxena A et al. Long-Term Safety and Efficacy of Anifrolumab in Adults With Systemic Lupus Erythematosus: Results of a Phase II Open-Label Extension Study. Arthritis Rheumatol. 2021 May;73(5):816-825.